14 de ago de 2014

Politica Nacional

O pão que o diabo amassou
Candidatura do maior partido do País nas eleições para o governo de São Paulo será excluída dos debates televisionados. Fundo partidário da legenda, o maior repasse dentre todas, pode ser cortado, de maneira inédita, em plena eleição. Bem-vindos ao mundo dos preteridos

O Partido dos Trabalhadores está passando por uma experiência inédita. Pelo menos para ele. Ocorre que, pela segunda vez, os técnicos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) recomendaram aos ministros que desaprovem as contas prestadas pelo partido relativas ao ano de 2008. A alegação é a de que há irregularidades na aplicação do Fundo Partidário. O PT recebe cerca de R$4 milhões por mês e pode deixar de contar com esses recursos durante toda a campanha eleitoral.


A decisão é inédita não só porque afeta o PT, mas porque a apreciação das contas dos partidos não é, de praxe, feita simultaneamente à realização das eleições. Trata-se de uma exceção, cujos efeitos podem atingir também outras legendas. Bloquear recursos para o PT, nesse sentido, cumpre uma dupla função: ajuda a paralisar o partido em plena disputa eleitoral e serve de cobertura para o ataque a um pequeno, mas contundente, partido oposição, como é o caso do PCO, que recebe cerca de 100 vezes menos recursos do Fundo Partidário do que o PT. 

De joelhos, a direção do PT se humilha diante da Globo

Não é só pelos R$4 milhões. No final da semana passada, o PT enviou carta à Rede Globo de televisão questionando o critério adotado pela emissora para excluir o candidato Alexandre Padilha da cobertura diária da campanha eleitoral. A Globo estabeleceu que só vai acompanhar diariamente a agenda dos candidatos que tiverem mais de 6% nas pesquisas do Ibope e do Datafolha. Com apenas 5% na pesquisa realizada em julho, Padilha está fora da grade diária de imagens e comentários nos telejornais da emissora mais poderosa do País. Apenas Geraldo Alckmin do PSDB e Paulo Skaf do PMDB obtém cobertura todos os dias. Na carta, o presidente estadual do PT, Emídio de Souza, reivindica que a direção da Globo reavalie sua decisão diante de que a margem de erro das pesquisas é de 2 a 3 pontos percentuais para mais ou para menos e que Padilha teria, portanto, até 8% de intenção de votos. Diz o presidente estadual da legenda:

“Ciente de que a emissora obedece critérios de isonomia e oferece oportunidade para a participação de todos os candidatos, em sintonia com o processo democrático e que deve ser sempre celebrado, me posiciono fortemente contra as regras enviadas, pois avalio que as mesmas vão de encontro à premissa apresentada”. Para participar da “festa da democracia”, o PT recorre à bajulação. “Diante disso, solicito a essa emissora que reavalie sua posição, visto que tais critérios podem incorrer em injustiça com o candidato em questão, bem como prejudicar o processo democrático da eleição e o direito assegurado aos cidadãos pela Constituição de garantia de informações de forma transparente e igualitária”.

 

O PT não enfrenta a direita e paga o preço por sua capitulação


E assim o maior partido do país rende tributos ao monopólio capitalista da comunicação. E o PT paga o preço por sua adaptação ao regime político burguês e aos ditames da direita pró-imperialista, dentro e fora do Estado. Justamente por ter forçado o partido à capitulação e à adaptação ao regime político que é uma continuação da Ditadura Militar, a direção do PT criou as condições para um ataque que pode ser desastroso para suas candidaturas, particularmente ali onde a situação da direita unificada no PSDB é especialmente delicada. A tentativa de anular o PT nas eleições é um dos poucos trunfos que resta ao PSDB e à direita. Enfrentando uma enorme rejeição popular ao governador Geraldo Alckmin e tendo lançado mão de uma segunda candidatura para dividir o eleitorado do PT, a de Paulo Skaf, a direita conservadora e pró-imperialista se agarra ao poder desesperadamente. Uma derrota para o PSDB no estado mais importante do País será devastadora para o partido e pode forçá-lo a uma reformulação completa se quiser continuar a ocupar a vaga de postulante ao poder.

O PT está sendo vítima das armadilhas do regime “democrático”, no qual a lei é “para todos” apenas no papel, porque é aplicada de acordo com a conveniência dos que efetivamente detém o poder no País.


O pão nosso de cada dia


Nosso partido conhece de perto as dificuldades que estão sendo impostas ao PT, mas por um motivo diferente. Somos um partido e representamos uma opinião ainda minoritária no País. Não temos à nossa disposição a enorme massa de recursos de que o PT disfruta. Não obtivemos o que temos por ter cedido à direita, por ter abandonado posições e a independência de classe da classe operária. Trata-se do exato oposto. O Partido da Causa Operária jamais abriu mão da defesa da independência de classe para o operariado, da necessidade de se construir um partido operário, revolucionário e socialista. Por esse mesmo motivo, a corrente Causa Operária, que fundou junto a outras o PT, foi expulsa do partido que hoje governa o País, logo depois da primeira eleição presidencial disputada por Lula em 1989. Lutávamos à época contra a política de colaboração de classes imposta por Lula e seus aliados ao partido, e que abriu o caminho já naquela época para o que se desenvolveu durante toda a década de 90 e culminou na ascensão do PT ao governo apoiado por todo um setor da burguesia brasileira e com o aval do imperialismo mundial. Nosso combativo partido enfrenta desde sempre todas as dificuldades impostas pelos que detém a maioria, seja nos sindicatos controlados pelo PT e outros partidos de esquerda que fazem parte da burocracia sindical, seja no Estado, que estabelece uma relação de controle do regime político sobre os partidos, impedindo um funcionamento realmente democrático. Conhecemos de perto a recusa burocrática da prestação de contas, e o consequente bloqueio dos recursos e contas do partido. Não baixamos a cabeça. Nosso partido não depende da verba estatal. Pelo contrário, se apoia na colaboração de seus militantes, filiados e simpatizantes, em atividades e campanhas financeiras próprias. Ocorreu com nosso partido uma intervenção estatal no meio das eleições muito pior do que a recusa das contas do PT agora. Nossa candidatura presidencial, do companheiro Rui Costa Pimenta, foi impugnada no meio das eleições de 2006. Um processo que foi uma verdadeira aberração jurídica levou à recusa das contas do partido por uma diferença irrisória, de centavos, e, embora tenha mantido o nome do nosso candidato na urna, não deu ao partido a oportunidade de conhecer sequer a sua votação no final do primeiro turno.
Somos preteridos pela cobertura da imprensa burguesa. Deixados de lado com a desculpa de que não há espaço para as candidaturas dos chamados “nanicos”, uma operação que mistura partidos absolutamente diferentes como o nosso, por um lado, e uma legenda de aluguel da direita, como o PRTB, do outro. Não dependemos dessa cobertura. O partido atua desde sua criação para constituir uma imprensa própria, ter seus próprios meios para chegar à população trabalhadora, à juventude etc.

PCo

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